
Enviei recentemente a uma revista acadêmica um artigo que se debruça sobre “O Alienista”, de Machado de Assis. Enquanto o texto aguarda avaliação, compartilho aqui a ideia central.
A novela, publicada em 1882 e situada no Brasil colonial, articula duas revoluções que se desenrolam em paralelo. De um lado, a insurreição sociopolítica conduzida pelo barbeiro Porfírio contra a Casa Verde, o manicômio de Itaguaí; de outro, a revolução médico-científica promovida por Simão Bacamarte, que subverte reiteradamente as fronteiras entre razão e loucura. Ambas as revoltas prometem a ruptura, mas o movimento circular as devolve ao ponto de origem: a Câmara é restaurada pelas tropas do vice-rei, Porfírio termina internado no asilo que jurara destruir, o próprio Bacamarte se recolhe à Casa Verde, e o padre Lopes mantém intacta sua autoridade.
Para pensar esse movimento, recorro a duas fontes. A primeira é o verbete “Revolution”, de Raymond Williams, em Keywords, que revela como o termo, antes de evocar a instauração de uma ordem inédita, nomeava o giro dos astros e a restauração de uma autoridade anterior. O segundo é A ideia de revolução no Brasil, de Carlos Guilherme Mota, que, ao examinar as conjurações do final do século XVIII, observa que, em meio ao fervor revolucionário, o desejo de muitos era precisamente o retorno à situação anterior. O artigo dialoga com a crítica machadiana de Roberto Schwarz, Ivan Teixeira e John Gledson.
Lida à luz das ideias desses autores, “O Alienista” encena a revolução em seu sentido arcaico: o giro que retorna ao ponto de partida. O anacronismo da narrativa, ao inscrever no Brasil colonial uma ciência do tempo de Machado, abre uma fissura temporal que permite ao autor interrogar o próprio presente.
Leave a Reply