Matthew Barney e a decadência dos EUA

Matthew Barney

A vaselina destoa ao cobrir parte de Secret Name, nova escultura de Matthew Barney em chumbo, cobre e zinco. Ela sugere uma suavidade pouco previsível para a atual obsessão de Barney: a catástrofe da mitologia norte-americana.

Secret Name (2008-11) é uma das três obras da exibição DJED. Feitas de metais usados no universo artístico e industrial, as esculturas pertencem a Ancient Evenings, o atual work in progress do autor de Cremaster (1994-2002) e Drawing Restraint, iniciado em 1987.

Elas ficaram expostas até 22 de outubro na Gladstone Gallery, em Chelsea. Companheiro da cantora Björk, Barney realizou a sua estreia nova-iorquina há 20 anos na mesma galeria.

Em elaboração desde 2007, o projeto chega pela primeira vez à Big Apple. Ele empresta o seu título de Ancient Evenings (1983), livro de Norman Mailer sobre os sete ciclos da morte e reencarnação descritos pela mitologia egípcia. Mailer conta a história de um homem, substituído por um carro na obra de Barney.

Ancient Evenings foi concebido como uma ópera de sete atos, da qual vão derivar esculturas e filmes. Barney escreveu o libreto e Jonathan Bepler compôs a música.

Três atos foram encenados até agora e tiveram como protagonista 1967 Chrysler Imperial, carro de luxo e objeto de fetiche.

Realizado em maio de 2008, o primeiro deles (REN) transcorreu durante 2 horas em uma concessionária de automóveis de Los Angeles, cercada por estradas, inúmeras vagas de estacionamento e lojas de cadeia, elementos típicos da paisagem urbana dos EUA. Cerca de 500 pessoas foram convidadas.

O segundo (SEKHEM) e o terceiro (KHU) ocorreram em dezembro de 2009 e outubro de 2010. As locações foram áreas industriais degradadas de Dearborn e Detroit, no Estado de Michigan. Cerca de 200 convidados viram as performances.

Ao contrário das duas anteriores, KHU durou mais de 6 horas e despertou comparações com O Anel do Nibelungo, ciclo de quatro óperas de Richard Wagner.

Conhecida como Motor City, Detroit tem sofrido com a crise das montadoras de carros e a evasão de 25% dos moradores na última década. Ancient Evenings se transformou, assim, na alegoria do declínio e possível renascimento do sonho norte-americano.

As novas esculturas de Barney são acompanhadas por 12 desenhos, nos quais surge a relação, muitas vezes sexual, entre homem e máquina. A fábula do escritor J.G. Ballard em Crash (1973), difundida pela adaptação de David Cronenberg para o cinema em 1996, vem à tona como um fantasma.

Composta de ferro fundido, DJED (2009-11) é o resultado da modificação do Chrysler Imperial em Osíris, deus egípcio representado ali em forma de hieróglifo. Canopic Chest (2009-11) traz o chassi daquele carro misturado com bronze. Ambas apresentam uma estética de terra arrasada similar à dos trabalhos do alemão Anselm Kiefer.

Quando anunciaram DJED, surgiram especulações sobre uma performance de Barney, 44, em Nova York. Nada está confirmado, porém. Se algo ocorrer, será de surpresa e para convidados.

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