O sucesso de Tom Zé

A procissão caminha até Tom Zé, de camisa branca (à esquerda)

Tom Zé representa a falta de sentido de um lugar chamado Brasil. Vale para ele o que o escritor Paulo Leminski falou do livro Catatau: a sua carreira “é o fracasso da lógica branca cartesiana no calor”. Misteriosamente, os nova-iorquinos amam a arte bárbara desse músico baiano de 74 anos. A falência do racionalismo explica a sedução de Tom Zé. 

Definido pelo The New York Times como “pensador, iconoclasta e cientista maluco”, Tom Zé lotou o Alice Tully Hall no último dia 19. A sua apresentação veio na esteira do lançamento de Studies of Tom Zé, Explaining Things So I Can Confuse You (Luaka Bop), box com os discos Estudando o Samba (1976), Estudando o Pagode (2005) e Estudando a Bossa (2008). A caixa vem com textos críticos, um bê-á-bá sobre a obra do artista. 

Mr. Zé – os americanos pronunciam Mr. Zi – entrou duas vezes no palco antes de começar a valer. A explicação foi a seguinte: “Se aplaudem porque estão esperando um grande artista, vocês não vão ver nada disso. Vão ver o Tom Zé.” Era a deixa para “o invencionista simplório”. 

Dali em diante, ele falou um inglês macarrônico. Cuspiu para cima. Desmontou o violão e, à maneira de Marcel Duchamp, encaixou num banquinho o braço do instrumento. Foi maestro. Tirou a roupa. Pulou da ribalta. Fez jingle para vender CDs. Sacudiu-se caoticamente. Dançou com a madame empetecada da primeira fila. Agradeceu a David Byrne por tê-lo resgatado do limbo nos anos 1990. Compôs música com o conteúdo da lista telefônica de Nova York. Declarou amor aos anúncios sonoros do metrô. E encontrou tempo para cantar.

A banda de Tom Zé era formada por Felipe Alves (baixo), Cristina Carneiro (teclado), Renato Lellis (guitarra e violão), Rosangela Lemos Silva (vocal), Jarbas Mariz Martins (bandolim) e Lauro Lellis (bateria). Algumas das músicas previstas pelo programa foram trocadas na última hora. Uma pena, porque estavam traduzidas para o inglês.

Tom Zé começou com Nave Maria, emendada em Dois Mil e Um, Filho do Pato, João nos Tribunais e O Riso e a Faca. Interpretou de improviso Metrô e Páginas Amarelas. Fez as vezes de bardo em Brigitte Bardot, traduzida simultaneamente pelo guitarrista. Parou Politicar no meio – ele alegou que, sem tradução, o sentido da música se perdia. Ogodô, Ano 2000 e Augusta, Angélica e Consolação foram executadas com o auxílio do público. E sob ameaça: ou a plateia cantava junto ou a banda parava.

Tom Zé ficou cansado e encurtou o bis. Tocou Feira de Santana e Todos os Olhos, “uma crítica à ditadura militar”. Aplaudido de pé, ele preferiu cumprir a promessa de assinar os discos, momento pelo qual manifestou grande ansiedade. Tal como anunciara, ele foi encontrar as pessoas sem lavar o rosto. Nada o impediria de distribuir abraços e beijos em Nova York. A multidão na saída do Alice Tully Hall estava fascinada. Ela atestou o sucesso brasileiro, miscigenado, nas terras de clima temperado. 

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