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In Search of New Knowledge

CHECK A PIECE ABOUT MARCEL PROUST

 

Por Francisco Quinteiro Pires, para O Valor, de Nova York

Durante parte de sua vida e décadas após a sua morte, Marcel Proust (1871-1922) foi considerado um escritor diletante e o exemplo de um burguês esnobe. Proust teria passado a maioria dos seus dias como adulto sobre uma cama, de onde, segundo escreveu em uma carta, mirava “apenas as paredes deste quarto, nunca iluminado pelo sol”.Ao longo do século XX, os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, sua obra-prima,recentemente reeditada pela Globo Livros, deixaram de ser somente vanguardistas para entrar no cânone literário e na cultura de massa.

 

Jeanne Proust and her sons Marcel and Robert. 1896? FONDS LE MASLE Num豯 411

 

Em 2000, numa resenha sobre “Marcel Proust: A Life”, biografia escrita por William C. Carter, o ficcionista John Updike havia confirmado a aceitação mais ampla do autor francês ao declarar que “ele continua sendo amado”. Updike afirmou que o trabalho de Proust “não se petrificara”, ao contrário das obras de escritores “ousados e modernos” como James Joyce, Robert Musil, Thomas Mann e Franz Kafka. “Proust permanece tão suave e convidativo quanto uma cama de penas”, comparou.

A ficção do escritor francês chegaria à trama de um seriado da televisão americana no ano seguinte à crítica de Updike. Na terceira temporada de “Família Soprano”, em 2001, o mafioso Anthony Soprano rememorou traumas da infância ao comer fatias de um salame. Essa experiência, a psiquiatra do personagem lhe explicou, era semelhante à de Marcel, o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Em “No Caminho de Swann”, o primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, do qual a Companhia das Letras vai lançar uma nova tradução em 2014, Marcel parou de se “sentir medíocre, contingente, mortal” quando o gosto da madeleine embebida de chá o estimulou a explorar o passado e a “achar a verdade”. O ilustrador francês Stéphane Heuet desenhou o pequeno bolo de forma ovalada na sua adaptação da obra de Proust para os quadrinhos iniciada em 1998 e publicada pela Zahar. A dupla Pet Shop Boys o citou em “Memory of the Future”, uma das músicas do álbum “Elysium” (2012).

A madeleine tornou-se um clichê. Nos eventos realizados em Nova York para comemorar os cem anos de “No Caminho de Swann”, lançado em 14 de novembro de 1913, o chef renomado Dominique Ansel alimentou os fãs de Proust. Criador do cronut, uma mistura de croissant e donut considerada pela revista “Time” uma das invenções mais importantes de 2013, Ansel assou madeleines especiais para uma maratona de leituras de “No Caminho de Swann” em hotéis da moda no SoHo e em Williamsburg.

Proust tratou da formação de “No Caminho de Swann” em entrevista ao jornal “Le Temps” publicada em novembro de 1913. “Minha obra está dominada pela distinção entre a memória voluntária e a memória involuntária”, contou o escritor. Ele esclareceu a diferença entre os dois tipos. A voluntária é “uma memória da inteligência e dos olhos” que “não nos dá, do passado, mais do que faces sem realidade”. A involuntária deve ser o alvo da preocupação do artista, pois a lembrança independente da razão tem “a marca da autenticidade”.

“O episódio da madeleine explica por que Proust continua a falar com gerações através de uma voz que não perde a novidade e a força”, diz ao Valor William C. Carter, autor de “Marcel Proust: A Life” e considerado pelo crítico Harold Bloom “o biógrafo definitivo” do escritor francês. “Todos nós temos recordações inesperadas e por isso podemos facilmente nos identificar com as emoções de Marcel, o narrador.”

Segundo Carter, ao usar a primeira pessoa do plural e forçar a comparação da experiência do narrador com a do leitor, Proust alertou para o fato de que a identidade de um indivíduo depende de um juízo social. “Nossa personalidade é uma criação do pensamento alheio”, declarou Marcel em “No Caminho de Swann”, traduzido pelo poeta Mario Quintana. Com essa afirmação, Marcel explicou por que a sua família tratava o personagem Charles Swann como um vizinho provinciano e não um frequentador da elite parisiense. “Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito”, continuou.

 

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Autora do recém-publicado “Le Fantôme du Petit Marcel”, um romance gráfico criado em colaboração com Stéphane Heuet, Elyane Dezon-Jones enfatiza o desejo de Proust de que os seus leitores realizem um estudo de si mesmos, ao percorrerem as mais de 3 mil páginas de “Em Busca do Tempo Perdido”. “A sua investigação é um modelo para quem quer encontrar a própria personalidade”, diz Dezon-Jones, contemplada com a medalha da Ordre des Arts et des Lettres pelos seus estudos proustianos. “Ela nos ajuda a entender as nossas paixões e desilusões, a nossa vontade de participar de um grupo e a frustração sentida quando fazemos parte dele.”

Em debate no 92nd Street Y, em Manhattan, a escritora Jennifer Egan afirmou ter lido “Em Busca do Tempo Perdido” em duas ocasiões, quando estava com 20 e poucos anos e quase com 40. “A segunda leitura foi feita com um grupo de amigos. Levamos mais de seis anos para terminar toda a obra. Nesse período cinco crianças nasceram”, disse a escritora. “Esses eventos me deram outra perspectiva porque o livro de Proust é sobre a passagem do tempo.” Jennifer tentou durante anos imitar “o senso de profundo mistério” dos personagens proustianos. “O segredo está na polifonia da sua narrativa, estruturada em uma cadência musical”, explicou a ganhadora do Pulitzer Prize de 2011 pelo romance “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca).

Proust incorporou períodos históricos decisivos, como a belle époque e a Primeira Guerra Mundial, à narrativa de “Em Busca do Tempo Perdido”. “Ele cresceu em um mundo sem eletricidade e sistema de transporte de massa”, conta Carter. “Mas até 1910 ele testemunhou a invenção da energia elétrica, do telefone, do automóvel, do cinema, do avião e do metrô de Paris.” Proust chamou essa ebulição criativa de “a era da velocidade”. “A sua ficção explorou como essas novidades mudaram a percepção das pessoas em relação ao tempo e ao espaço”, diz o biógrafo.

“No Caminho de Swann”, de acordo com Carter, é talvez o melhor texto já escrito sobre os sentidos e serve para refletir a respeito da internet. Os usuários das mídias sociais são diariamente convidados a criar uma identidade virtual e pública. Pensadores contemporâneos começaram a questionar se, entre os efeitos de uma personalidade construída em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta ameaça à espontaneidade das relações humanas. “‘Em Busca do Tempo Perdido'”, diz Carter, “nos faz conscientes da complexidade da existência e nos alerta para a descoberta do nosso potencial de vivê-la à plenitude, possibilidade que negligenciamos com frequência”.

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Entrevista com David Orr, crítico de poesia

Texto publicado pelo Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo (17/9/2011)

Crítico de poesia David Orr em foto de Tom McGhee

 

Iconoclasta, David Orr evita tratamento ‘sagrado’ à poesia

Para colunista do ‘New York Times’, poesia é trabalho como outro qualquer

A leitura de poemas, diz, é como ir a um país estrangeiro: “Ambos têm costumes e regras a ser respeitados”

FRANCISCO QUINTEIRO PIRES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Certa noite, apresentado a uma mulher, David Orr revelou a sua profissão. A nova colega se ofendeu. “Ela me olhou como se eu tivesse jogado um saco com filhotes de gato numa máquina de triturar”, diz Orr. “Não aceitou que eu criticasse a poesia de alguém!”

A crença de que poesia transmite uma verdade profunda causou o choque da interlocutora. Como o poeta fala de temas sensíveis, a crítica a sua obra representaria uma covardia. Em “Beautiful & Pointless – A Guide to Modern Poetry” (bonita e sem sentido – um guia para a poesia moderna), Orr dispensa esse tipo de tratamento “sagrado”.

Colunista da “New York Times Book Review”, ele acredita que poesia é um trabalho como qualquer outro. Não é pior nem melhor.Orr não se interessa pela definição de obra poética, mas pela indiferença a ela.

“O universo da poesia tem sido bem-sucedido ao discutir classificações, mas vai mal ao falar do significado da leitura”, diz. “Quero entender por que ler poesia vale menos a pena do que assistir à versão de ‘Blade Runner’ com cortes do diretor.”

Com essa perspectiva, Orr, 37, ganhou um prêmio do National Book Critics Circle e a admiração do crítico literário Harold Bloom. “Ele é um autêntico iconoclasta”, afirmou Bloom. “Livre de expressões pomposas, seu criticismo é exuberante e original.”

Orr não integra o coro dos que discutem o fim da expressão poética. “Para essa turma, a poesia se transformou numa avó acamada, cujas fungadas são interpretadas como sinal de pneumonia.”

Em vez de lamentar uma falsa morte, ele diz, o leitor deve tratar a leitura de poemas como a visita a um país estrangeiro. “Ambos têm costumes e regras a serem respeitados.” É preciso aceitar a confusão inicial.

“A poesia precisa dessa reação natural para se manter viva. Ou será só uma coleção meticulosamente documentada de borboletas mortas.”

MUNDO FECHADO
Orr descreve como padrão da poesia contemporânea a criação de um mundo fechado onde impera uma voz confessional. Elizabeth Bishop (1911-79) e Robert Lowell (1917-77) são as influências dos novos autores. “Continua o embate entre a forma metrificada, classificada como artigo de museu, e a livre, tachada de caótica”, diz Orr. “As pessoas ainda esperam o poema elevado, retórico, impositivo.”

Ao contrário da também crítica Marjorie Perloff, que censura as resenhas de “jornalistas e poetas menores”, Orr acredita que todos podem, em princípio, tratar do tema. “A história não apoia a teoria de que os especialistas têm um julgamento acima da média”, afirma.

Além de trabalhar para o “NYT”, ele escreve para as revistas “Slate”, “Poetry” e “The Believer”. Mas não pode esperar muito do ofício. “Ser apenas crítico é impossível.” Orr também advoga.

BEAUTIFUL & POINTLESS – A GUIDE TO MODERN POETRY
AUTOR David Orr
EDITORA Harper
QUANTO US$ 20,99 (cerca de R$ 44,50, na Amazon; 256 págs.)

RAIO-X
DAVID ORR

FORMAÇÃO
É bacharel em humanidades pela Universidade Princeton e estudou direito em Yale

TRABALHO
Além de ser crítico da “New York Times Book Review”, escreve para as revistas “Slate”, “Poetry” e “The Believer”. Também é advogado

PRÊMIOS
Recebeu o Nona Balakian Priz, do National Book Critics Circle, e o Editor’s Prize for Reviewing, da revista “Poetry”