Entrevista com David Orr, crítico de poesia

Texto publicado pelo Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo (17/9/2011)

Crítico de poesia David Orr em foto de Tom McGhee

 

Iconoclasta, David Orr evita tratamento ‘sagrado’ à poesia

Para colunista do ‘New York Times’, poesia é trabalho como outro qualquer

A leitura de poemas, diz, é como ir a um país estrangeiro: “Ambos têm costumes e regras a ser respeitados”

FRANCISCO QUINTEIRO PIRES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

Certa noite, apresentado a uma mulher, David Orr revelou a sua profissão. A nova colega se ofendeu. “Ela me olhou como se eu tivesse jogado um saco com filhotes de gato numa máquina de triturar”, diz Orr. “Não aceitou que eu criticasse a poesia de alguém!”

A crença de que poesia transmite uma verdade profunda causou o choque da interlocutora. Como o poeta fala de temas sensíveis, a crítica a sua obra representaria uma covardia. Em “Beautiful & Pointless – A Guide to Modern Poetry” (bonita e sem sentido – um guia para a poesia moderna), Orr dispensa esse tipo de tratamento “sagrado”.

Colunista da “New York Times Book Review”, ele acredita que poesia é um trabalho como qualquer outro. Não é pior nem melhor.Orr não se interessa pela definição de obra poética, mas pela indiferença a ela.

“O universo da poesia tem sido bem-sucedido ao discutir classificações, mas vai mal ao falar do significado da leitura”, diz. “Quero entender por que ler poesia vale menos a pena do que assistir à versão de ‘Blade Runner’ com cortes do diretor.”

Com essa perspectiva, Orr, 37, ganhou um prêmio do National Book Critics Circle e a admiração do crítico literário Harold Bloom. “Ele é um autêntico iconoclasta”, afirmou Bloom. “Livre de expressões pomposas, seu criticismo é exuberante e original.”

Orr não integra o coro dos que discutem o fim da expressão poética. “Para essa turma, a poesia se transformou numa avó acamada, cujas fungadas são interpretadas como sinal de pneumonia.”

Em vez de lamentar uma falsa morte, ele diz, o leitor deve tratar a leitura de poemas como a visita a um país estrangeiro. “Ambos têm costumes e regras a serem respeitados.” É preciso aceitar a confusão inicial.

“A poesia precisa dessa reação natural para se manter viva. Ou será só uma coleção meticulosamente documentada de borboletas mortas.”

MUNDO FECHADO
Orr descreve como padrão da poesia contemporânea a criação de um mundo fechado onde impera uma voz confessional. Elizabeth Bishop (1911-79) e Robert Lowell (1917-77) são as influências dos novos autores. “Continua o embate entre a forma metrificada, classificada como artigo de museu, e a livre, tachada de caótica”, diz Orr. “As pessoas ainda esperam o poema elevado, retórico, impositivo.”

Ao contrário da também crítica Marjorie Perloff, que censura as resenhas de “jornalistas e poetas menores”, Orr acredita que todos podem, em princípio, tratar do tema. “A história não apoia a teoria de que os especialistas têm um julgamento acima da média”, afirma.

Além de trabalhar para o “NYT”, ele escreve para as revistas “Slate”, “Poetry” e “The Believer”. Mas não pode esperar muito do ofício. “Ser apenas crítico é impossível.” Orr também advoga.

BEAUTIFUL & POINTLESS – A GUIDE TO MODERN POETRY
AUTOR David Orr
EDITORA Harper
QUANTO US$ 20,99 (cerca de R$ 44,50, na Amazon; 256 págs.)

RAIO-X
DAVID ORR

FORMAÇÃO
É bacharel em humanidades pela Universidade Princeton e estudou direito em Yale

TRABALHO
Além de ser crítico da “New York Times Book Review”, escreve para as revistas “Slate”, “Poetry” e “The Believer”. Também é advogado

PRÊMIOS
Recebeu o Nona Balakian Priz, do National Book Critics Circle, e o Editor’s Prize for Reviewing, da revista “Poetry”

 

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