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Clarice Lispector em inglês

Leia reportagem sobre as traduções para o inglês dos livros de Clarice Lispector

Publicada na edição 670 da revista Carta Capital (9 de novembro de 2011)

 

 

 

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.

Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978).

Fundada em 1936, a New Directions angariou respeito ao revelar autores modernos, como Dylan Thomas e Law-rence Ferlinghetti, e traduzir, entre outros, Roberto Bolaño, Louis-Ferdinand Céline, W.G. Sebald e Javier Marías. Baseada em Nova York, ela iria reeditar a antiga tradução de A Hora da Estrela por Giovanni Pontiero (1932-1996), com uma introdução do escritor irlandês Colm Tóibín. Moser convenceu Barbara Epler, presidente da New Directions, e Paulo Gurgel Valente, o segundo filho de Clarice, de que um novo projeto seria melhor.

Em carta para Valente, o biógrafo listou os problemas da versão de Pontiero, celebrado por traduzir José Saramago. Frases inteiras desaparecem. Palavras da língua portuguesa são ignoradas e soluções em inglês, inadequadas. Às vezes, Pontiero adiciona expressões para reforçar o comportamento dos personagens. Para o trecho “Ela uma vez pediu a Olímpico que a telefonasse. Ele disse:”, o tradutor sugere o equivalente em inglês a “Ele deu uma resposta devastadora”. Segundo Moser, Pontiero poderia ter colocado apenas “Ele disse”, respeitando o texto original. Uma figura medieval, por exemplo, transforma-se em primitive creature (criatura primitiva). “Não há fidelidade ao estilo de Clarice.”

Machado de Assis também sofreu ao ser vertido para o inglês. Especialista na obra machadiana, John Gledson lembra que, quando Robert Scott-Buccleuch traduziu Dom Casmurro, nove capítulos foram suprimidos. “É um caso escandaloso”, diz Gledson, “não havia nem o índice com os títulos dos capítulos.” Publicada pela Peter Owen, editora independente de Londres, a tradução foi reeditada pela Penguin Classics e depois desapareceu do mercado. Embora Moser e a Penguin Classics afirmem que Clarice é a primeira escritora brasileira a figurar no catálogo da editora, os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (Epitaph of a Small Winner) e Dom Casmurro foram lançados pela empresa britânica nos anos 1960 e 1990, respectivamente.

Gledson traduziu Dom Casmurro, em meados dos anos 1990, para um projeto da Oxford University Press. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba ficaram a cargo de Gregory Rabassa, autor da primeira tradução para o inglês de um romance de Clarice, A Maçã no Escuro (1961). O trabalho de Rabassa em relação a Memórias… é, segundo Gledson, “cheio de erros, grandes, pequenos, e de infelicidades”. Ele não adota, como Gledson fez na sua versão, notas explicativas. “Não olhei em detalhes a tradução de Quincas Borba, mas algumas verificações me fazem pensar que o mesmo problema aconteceu”, diz o crítico inglês.

Harold Bloom elogiou as traduções deficientes de Rabassa. O fracasso literário de Quincas Borba, ele afirmou, deve-se ao fato de ser narrado em terceira pessoa, “que não é o forte de Machado”. Para Gledson, Bloom é o “exemplo mais grotesco” da separação entre forma e conteúdo na interpretação das obras machadianas. Essa leitura crítica no mundo anglófono criou o Machado brasileiro e o Machado modernista. “A tarefa de dar um perfil em inglês para Machado de Assis apenas começou”, diz Gledson. Parece ser esse o caso de Clarice Lispector.

Quando Giovanni Pontiero verteu para o inglês A Hora da Estrela, Perto do Coração Selvagem e Laços de -Família, ele suavizou “a linguagem vívida e peculiar- que é parte considerável da personalidade literária da autora brasileira”. Por muitos anos, Gledson adotou Laços de Família (1960) como tema das suas aulas. “Livro mais acessível e sedutor, ele precisa desesperadamente de uma nova tradução.” A depender da recepção do mercado, o próximo passo, segundo Benjamin Moser, será traduzir os contos completos da ficcionista.

“Uma tradução feliz não necessariamente levará à fama, mas acho que é uma condição sine qua non”, diz Gledson. O custo médio da tradução bem-feita de um romance é 7 mil dólares. “Mas o maior obstáculo é a gigantesca e ainda crescente importância do inglês.” Essa supremacia resulta na falta de interesse por outros idiomas e culturas. Segundo Gledson, o fato de ficcionistas australianos, sul-africanos e indianos que empregam a língua inglesa ganharem mais destaque e prêmios (The Man Booker Prize é o melhor exemplo) só reforça o monopólio cultural. “É difícil ser otimista.”

Em Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the meaning of everything, lançado pela Faber & Faber neste mês, o tradutor David Bellos discute a ânsia mundial pela língua inglesa. Não à toa, 75% das traduções feitas durante um ano são de obras escritas em inglês. Na última década, 103 mil dos 132 mil livros traduzidos foram do idioma de Shakespeare para as sete línguas mais faladas.

“A literatura traduzida ocupa, de fato, um espaço quase insignificante na academia”, diz César Braga-Pinto, professor do Departamento de Espanhol e Português da Northwestern University. “Mesmo assim, Clarice é lida nas universidades norte-americanas.” Ele explica que os EUA sempre precisam de um rótulo para digerir escritores estrangeiros. A descoberta de Clarice veio com o boom latino-americano. No fim de 1967, escritores como Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes receberam a rubrica de “realismo mágico”. Àquela altura, a tendência, diz Braga-Pinto, era tornar palatável a prosa de Clarice. O resultado foi problemático. “Pontiero cometeu erros primários de incompreensão linguística tanto por conservadorismo quanto por desleixo.”

Ele diz ser possível fazer uma boa versão de Clarice em inglês, por mais estranha que seja sua sintaxe. “A melhor tradução é de Água Viva (Stream of Life), feita por Earl E. Fitz e Elizabeth Lowe”, diz. Braga-Pinto questiona se traduções fiéis ao estilo da autora poderiam ter espantado ainda mais os leitores. “A princípio limitadores, os rótulos podem colocar a obra de Clarice em diálogo com mais tradições. Não há por que estudá-la apenas sob a perspectiva da literatura brasileira.”

Foi o que pretendeu Benjamin Moser em sua biografia. “Uma abordagem mais recente, na qual se inclui o livro de Moser, interpreta a vida e a obra da autora brasileira segundo a diáspora judaica”, diz Marta Peixoto, professora da New York University. Clarice nasceu na Ucrânia e, ainda bebê, imigrou com a família para o Brasil. Marta se pergunta quem leria “os textos difíceis e agressivos” de Clarice fora da academia. “O grande interesse despertado pela biografia, a julgar pelas muitas resenhas publicadas na mídia, surgiu não de um conhecimento prévio do público norte-americano, mas da escolha feliz do biógrafo de narrar a trajetória de Clarice no contexto da perseguição e das migrações dos judeus no século XX.”

Autora de Ficções Apaixonadas: Gênero, narrativa e violência em Clarice Lispector, publicado em inglês pela University of Minnesota Press, em 1994, Marta conta que a recepção da obra lispectoriana depende das modas acadêmicas. A escritora foi tema de estudos existencialistas, psicanalíticos, feministas, estruturalistas, pós-estruturalistas e pós-colonialistas. O maior renome de Clarice entre os norte-americanos não foi criado nos EUA, mas na França, a partir dos anos 1970. “Os textos de Hélène Cixous, logo traduzidos para o inglês, apresentaram Clarice como exemplo perfeito da écriture féminine.” Segundo esse conceito teórico, certos escritores, não necessariamente do sexo feminino, criam textos que “favorecem o gasto, a doação, o risco”.

Para Earl E. Fitz, professor da Vanderbilt University e autor de Clarice Lispector (1985), a divulgação da obra lispectoriana depende de uma apresentação crítica competente. As expectativas dos leitores têm de ser consideradas, assim como as dificuldades de estilo, sintaxe e pontuação, ao traduzir a autora brasileira. “Complexidades estilísticas e ambiguidades temáticas não agradam a um país de raí-zes utilitárias como os EUA”, diz. “É preciso explicar a singularidade da ficção de Clarice no contexto brasileiro e no internacional.” Quando estudante, Fitz teve Gregory Rabassa como mentor. “As traduções, ele dizia, deveriam ser refeitas de tempos em tempos para dialogarem com cada geração.” O futuro de Clarice está em jogo.

Bolaño, a sensação literária de Nova York

Leia texto sobre o trabalho da tradutora Natasha Wimmer e Between Parentheses, livro de Roberto Bolaño

Publicado no Caderno Eu & Fim de Semana do jornal Valor Econômico (7 de outubro de 2011)

 

 

FIEL E CORAJOSA

Por Francisco Quinteiro Pires | Para o Valor, de Nova York

Roberto Bolaño é a maior sensação literária de Nova York. Nos últimos anos, ele se transformou no talismã de escritores, críticos e leitores. Seus livros aparecem em posição destacada nas livrarias e estão disponíveis nas bibliotecas públicas. O culto ao seu nome se tornou signo de inteligência.

A responsável principal pela consolidação dessa tendência é a tradutora Natasha Wimmer, de 38 anos. A moda se espalhou quando Natasha verteu para o inglês “Os Detetives Selvagens” (1998) e “2666” (2004), romances com os quais Bolaño ganhou fama internacional.

Em resenha sobre “Os Detetives Selvagens” para o “New York Times”, James Wood, badalado crítico inglês, confessou que sua “loucura” pelo escritor chileno foi desencadeada pela “talentosa tradução” feita por Natasha em 2006. “Repetidas vezes, ela encontra soluções na língua inglesa para um romance de informalidade linguística diabólica”, escreveu Wood. Embora goste de dividir os méritos com Chris Andrews, tradutor de romances mais curtos, como “Noturno do Chile” e “Estrela Distante”, ela fez o trabalho que despertou a atenção da imprensa.

“Como observo de dentro o fenômeno, tenho dificuldade de entender por que Bolaño se tornou canônico”, diz Natasha. “Quando se referem a ele como um marco cultural, ainda sinto calafrios.” O espanto da tradutora com a celebridade do ficcionista vem da recordação de um indivíduo pobre e doente que rejeitou com fúria o establishment literário.

Natasha traduziu a obra de outros escritores latino-americanos, como Mario Vargas Llosa (peruano), Laura Restrepo (colombiana) e Juan Pedro Gutiérrez (cubano). Mas sua carreira deu uma guinada com Bolaño. “Cheguei ao meu auge com seus romances”, diz. “Dificilmente vou encontrar nos próximos anos uma obra tão desafiadora.”

As traduções mais recentes de Natasha foram “O Terceiro Reich” (disponível em português pela Companhia das Letras) e “Between Parentheses” (sem tradução no Brasil). Organizado por Ignacio Echevarría, “Between Parentheses” foi publicado originalmente em 2004 pela Anagrama. “Entre Paréntesis”, título extraído da coluna assinada por Bolaño no jornal chileno “Las Últimas Noticias”, reúne ensaios, artigos e discursos do período 1998-2003.

 

A tradutora Natasha Wimmer fotografada por Miriam Berkley

 

Em 1998, Bolaño publicou “Os Detetives Selvagens”, pelo qual recebeu os prêmios Herralde de Novela e Rómulo Gallegos. Deixou de ser um escritor pouco conhecido que vivia isolado em Blanes, cidade litorânea da Espanha. O telefone passou a tocar.

“Between Parentheses” (New Directions, 390 págs., U$ 24,95) oferece em seu conteúdo autobiográfico uma cartografia emocional e intelectual de Bolaño, segundo Echevarría. Escritos sob o diagnóstico de uma doença hepática e em paralelo com o romance inacabado “2666”, os textos preservam o caráter urgente e visceral comum às ficções do romancista chileno. “Tudo que escrevi é uma carta de amor ou de despedida para minha geração.”

O livro se inicia com um autorretrato cheio de bom humor, um dos traços marcantes de seu estilo. “Nasci em 1953, ano em que Stálin e Dylan Thomas morreram. Embora tenha vivido na Europa por mais de 20 anos, minha única nacionalidade é chilena, o que não me impede de ser profundamente espanhol e latino-americano.”

Depois de contar que viveu no Chile, México e Espanha, ele confessa ter trabalhado “em todos os empregos do mundo, exceto três ou quatro que um pouco de dignidade proíbe aceitar”, e afirma ser mais feliz lendo do que escrevendo. Ele adora fazer listas dos escritores amados e odiados. Nicanor Parra e Jorge Luis Borges pertencem aos primeiros. Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Paulo Coelho estão entre os desprezados.

“O que fascina em alguns textos é o afeto do escritor por Blanes, onde viveu os seus últimos 20 anos”, diz Natasha. “Blanes é uma cidade indefinida, modesta e desconhecida. Serve como lugar para o descanso dos viajantes, algo que Bolaño sempre foi em certa medida.” Conhecida como “selva marítima”, a 65 km de Barcelona, Blanes agora recebe visitas de seguidores do romancista chileno, que chegou por acaso à cidade catalã nos anos 1980.

O exílio é um tema constante em “Between Parentheses”. Embora vista pela crítica como o fardo trágico de Bolaño, a mudança de país é um estranhamento comparável à imersão no universo literário. Para ele, “toda literatura carrega o exílio dentro de si”. “As terras estrangeiras são uma realidade geográfica objetiva ou uma construção mental em fluxo permanente?”, pergunta. Bolaño diz em “Exiles” que o expatriado é alguém em perpétua jornada. “Ser exilado não é desaparecer, mas encolher, é aos poucos ficar cada vez menor até alcançar nosso peso real, o verdadeiro peso de nossa natureza.”

Em “The Corridor with no Apparent Way Out”, ele narra a experiência do retorno ao Chile no fim de 1998. A descrição de um jantar com a escritora Diamela Eltit e seu marido, o ministro Jorge Arrate, enerva a elite intelectual chilena. Na segunda volta, em 1999, ele sofre represália pelos comentários. Aquela noite de 1998 inspirou “Noturno do Chile”, o mais bem acabado de seus livros, segundo o próprio autor.

“Between Parentheses” termina com uma das últimas entrevistas de Bolaño. Concedida à jornalista Mónica Maristain, foi publicada pela edição mexicana da “Playboy” em 15 de julho de 2003, dia da sua morte. As respostas mostram como ele é “intensamente ambicioso e desbravadamente humano”, segundo a tradutora.

O próximo projeto de Natasha é traduzir “Los Sinsabores del Verdadero Policía” (Anagrama), livro póstumo de Bolaño publicado no início do ano. Ela se diz fascinada com o ritmo da prosa do escritor, difícil de transpor para o inglês. “Luto com a tentação de suavizar as frases que parecem sem harmonia”, diz. “Aprendi a aceitar que o estilo de Bolaño nunca é previsível e às vezes pode ser estranho de propósito.”

O uso livre da linguagem, que incorpora regionalismos, é a maior característica do autor chileno, afirma a tradutora. Esse era seu verdadeiro território. Inspirado por Fernando Pessoa, cujo nome lamenta ter esquecido em texto de “Between Parentheses”, Bolaño afirmou ser a língua espanhola a sua terra natal.