Category Archives: tradução

The anticonformist

CHECK A PIECE ABOUT HARUKI MURAKAMI

 

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Salinger: the ruined silence

Check a piece about a biography of J.D. Salinger

 

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Reflexão sobre a liberdade

Leia uma reportagem sobre o ilustrador Shel Silverstein

Check a piece about the illustrator Shel Silverstein

 

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A mente de David Foster Wallace

Leia reportagem sobre a obra e a vida de David Foster Wallace publicada pelo Valor Econômico

Check a story about David Foster Wallace’s life and work published by Valor Econômico

 

A voz e o balanço do Black Power

Leia texto sobre a biografia de James Brown publicado pela revista Carta Capital

Check a piece about James Brown’s biography published by Carta Capital magazine

 

 

O que se perde para sempre

Leia texto sobre Train Dreams, de Denis Johnson, novela que será publicada no Brasil até o fim do ano.

Denis Johnson, fotografado por Cindy Johnson

Personagem de Train Dreams, novela de Denis Johnson, Robert Grainier teve uma esposa e uma filha. Dono de um acre de terra, dois cavalos e uma carroça, ele alimentou a pequena família ao trabalhar em construção de ferrovias no Oeste norte-americano. Entre 1886, quando nasceu, e 1968, o ano da sua morte, não bebeu, não comprou uma arma de fogo, não falou ao telefone. Na última década de vida, assistiu à televisão quando pôde. Morreu octogenário sem saber a identidade dos pais e sem deixar herdeiros.

A filha e a esposa desaparecerem num incêndio na cidade onde moravam, no estado de Idaho. A tragédia o perturbou anos a fio, mas a angústia não se manifestou com clareza. Aguentou calado, sem construir explicações para a fatalidade.

Grainier ergueu uma nova casa no mesmo espaço do lar incendiado. A mulher amada surgiu em sonhos. O sumiço da sua família foi tão notado pelos outros quanto o do próprio Grainier, ocorrido décadas depois. Morto no fim do outono, o corpo do protagonista foi encontrado por dois caminhantes apenas no começo da primavera. O enterro se deu com uma pá, usada para cavar um buraco na terra. Com Grainier sucumbiu algo da mitologia dos Estados Unidos.

Nascido na Alemanha Ocidental em 1949, criado em Tóquio, Manila e Washington, o escritor Denis Johnson relata com secura a história nada extraordinária de Robert Grainier. Comparado ao estilo dos livros de Ernest Hemingway, Train Dreams (Farrar, Straus and Giroux, 128 págs., US$ 18) é uma novela sobre um trabalhador braçal afetado pela Grande Depressão. Grainier é um homem sem estudos, cujo corpo se arruína com a labuta pesada e cotidiana.

O personagem tem perturbações metafísicas nada óbvias. Johnson faz pelo Oeste dos Estados Unidos o que Guimarães Rosa fez pelo sertão brasileiro. Ambos atribuem alma a homens rústicos, quase animalizados, de uma região desolada, mas ainda assim importante para a formação de uma identidade nacional.

Contemplado com o National Book Award em 2007, Johnson se tornou conhecido por Jesus’ Son (1992), coletânea de contos transposta para o cinema por Alison Maclean. Publicados no Brasil pela Companhia das Letras, Árvore de Fumaça e Ninguém se Mexe também fazem uma crônica da vida norte-americana. O primeiro aborda as insanidades da Guerra do Vietnã. Inspirado por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, Ninguém se Mexe narra os excessos de um jogador compulsivo e tabagista na Costa Oeste dos EUA, onde os indivíduos se percebem apartados do resto do mundo.

Train Dreams se diferencia daqueles dois romances de Johnson tanto pela objetividade da narração como pela discrição do protagonista. É uma novela, texto mais longo do que um conto e mais curto do que um romance. Inventado na Idade Média, o gênero é usado pelo autor norte-americano para apresentar uma história cujas pontas não se entrelaçam numa conclusão definitiva. Train Dreams tem um final tão aberto quanto o destino dos Estados Unidos.

Clarice Lispector em inglês

Leia reportagem sobre as traduções para o inglês dos livros de Clarice Lispector

Publicada na edição 670 da revista Carta Capital (9 de novembro de 2011)

 

 

 

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.

Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978).

Fundada em 1936, a New Directions angariou respeito ao revelar autores modernos, como Dylan Thomas e Law-rence Ferlinghetti, e traduzir, entre outros, Roberto Bolaño, Louis-Ferdinand Céline, W.G. Sebald e Javier Marías. Baseada em Nova York, ela iria reeditar a antiga tradução de A Hora da Estrela por Giovanni Pontiero (1932-1996), com uma introdução do escritor irlandês Colm Tóibín. Moser convenceu Barbara Epler, presidente da New Directions, e Paulo Gurgel Valente, o segundo filho de Clarice, de que um novo projeto seria melhor.

Em carta para Valente, o biógrafo listou os problemas da versão de Pontiero, celebrado por traduzir José Saramago. Frases inteiras desaparecem. Palavras da língua portuguesa são ignoradas e soluções em inglês, inadequadas. Às vezes, Pontiero adiciona expressões para reforçar o comportamento dos personagens. Para o trecho “Ela uma vez pediu a Olímpico que a telefonasse. Ele disse:”, o tradutor sugere o equivalente em inglês a “Ele deu uma resposta devastadora”. Segundo Moser, Pontiero poderia ter colocado apenas “Ele disse”, respeitando o texto original. Uma figura medieval, por exemplo, transforma-se em primitive creature (criatura primitiva). “Não há fidelidade ao estilo de Clarice.”

Machado de Assis também sofreu ao ser vertido para o inglês. Especialista na obra machadiana, John Gledson lembra que, quando Robert Scott-Buccleuch traduziu Dom Casmurro, nove capítulos foram suprimidos. “É um caso escandaloso”, diz Gledson, “não havia nem o índice com os títulos dos capítulos.” Publicada pela Peter Owen, editora independente de Londres, a tradução foi reeditada pela Penguin Classics e depois desapareceu do mercado. Embora Moser e a Penguin Classics afirmem que Clarice é a primeira escritora brasileira a figurar no catálogo da editora, os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (Epitaph of a Small Winner) e Dom Casmurro foram lançados pela empresa britânica nos anos 1960 e 1990, respectivamente.

Gledson traduziu Dom Casmurro, em meados dos anos 1990, para um projeto da Oxford University Press. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba ficaram a cargo de Gregory Rabassa, autor da primeira tradução para o inglês de um romance de Clarice, A Maçã no Escuro (1961). O trabalho de Rabassa em relação a Memórias… é, segundo Gledson, “cheio de erros, grandes, pequenos, e de infelicidades”. Ele não adota, como Gledson fez na sua versão, notas explicativas. “Não olhei em detalhes a tradução de Quincas Borba, mas algumas verificações me fazem pensar que o mesmo problema aconteceu”, diz o crítico inglês.

Harold Bloom elogiou as traduções deficientes de Rabassa. O fracasso literário de Quincas Borba, ele afirmou, deve-se ao fato de ser narrado em terceira pessoa, “que não é o forte de Machado”. Para Gledson, Bloom é o “exemplo mais grotesco” da separação entre forma e conteúdo na interpretação das obras machadianas. Essa leitura crítica no mundo anglófono criou o Machado brasileiro e o Machado modernista. “A tarefa de dar um perfil em inglês para Machado de Assis apenas começou”, diz Gledson. Parece ser esse o caso de Clarice Lispector.

Quando Giovanni Pontiero verteu para o inglês A Hora da Estrela, Perto do Coração Selvagem e Laços de -Família, ele suavizou “a linguagem vívida e peculiar- que é parte considerável da personalidade literária da autora brasileira”. Por muitos anos, Gledson adotou Laços de Família (1960) como tema das suas aulas. “Livro mais acessível e sedutor, ele precisa desesperadamente de uma nova tradução.” A depender da recepção do mercado, o próximo passo, segundo Benjamin Moser, será traduzir os contos completos da ficcionista.

“Uma tradução feliz não necessariamente levará à fama, mas acho que é uma condição sine qua non”, diz Gledson. O custo médio da tradução bem-feita de um romance é 7 mil dólares. “Mas o maior obstáculo é a gigantesca e ainda crescente importância do inglês.” Essa supremacia resulta na falta de interesse por outros idiomas e culturas. Segundo Gledson, o fato de ficcionistas australianos, sul-africanos e indianos que empregam a língua inglesa ganharem mais destaque e prêmios (The Man Booker Prize é o melhor exemplo) só reforça o monopólio cultural. “É difícil ser otimista.”

Em Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the meaning of everything, lançado pela Faber & Faber neste mês, o tradutor David Bellos discute a ânsia mundial pela língua inglesa. Não à toa, 75% das traduções feitas durante um ano são de obras escritas em inglês. Na última década, 103 mil dos 132 mil livros traduzidos foram do idioma de Shakespeare para as sete línguas mais faladas.

“A literatura traduzida ocupa, de fato, um espaço quase insignificante na academia”, diz César Braga-Pinto, professor do Departamento de Espanhol e Português da Northwestern University. “Mesmo assim, Clarice é lida nas universidades norte-americanas.” Ele explica que os EUA sempre precisam de um rótulo para digerir escritores estrangeiros. A descoberta de Clarice veio com o boom latino-americano. No fim de 1967, escritores como Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes receberam a rubrica de “realismo mágico”. Àquela altura, a tendência, diz Braga-Pinto, era tornar palatável a prosa de Clarice. O resultado foi problemático. “Pontiero cometeu erros primários de incompreensão linguística tanto por conservadorismo quanto por desleixo.”

Ele diz ser possível fazer uma boa versão de Clarice em inglês, por mais estranha que seja sua sintaxe. “A melhor tradução é de Água Viva (Stream of Life), feita por Earl E. Fitz e Elizabeth Lowe”, diz. Braga-Pinto questiona se traduções fiéis ao estilo da autora poderiam ter espantado ainda mais os leitores. “A princípio limitadores, os rótulos podem colocar a obra de Clarice em diálogo com mais tradições. Não há por que estudá-la apenas sob a perspectiva da literatura brasileira.”

Foi o que pretendeu Benjamin Moser em sua biografia. “Uma abordagem mais recente, na qual se inclui o livro de Moser, interpreta a vida e a obra da autora brasileira segundo a diáspora judaica”, diz Marta Peixoto, professora da New York University. Clarice nasceu na Ucrânia e, ainda bebê, imigrou com a família para o Brasil. Marta se pergunta quem leria “os textos difíceis e agressivos” de Clarice fora da academia. “O grande interesse despertado pela biografia, a julgar pelas muitas resenhas publicadas na mídia, surgiu não de um conhecimento prévio do público norte-americano, mas da escolha feliz do biógrafo de narrar a trajetória de Clarice no contexto da perseguição e das migrações dos judeus no século XX.”

Autora de Ficções Apaixonadas: Gênero, narrativa e violência em Clarice Lispector, publicado em inglês pela University of Minnesota Press, em 1994, Marta conta que a recepção da obra lispectoriana depende das modas acadêmicas. A escritora foi tema de estudos existencialistas, psicanalíticos, feministas, estruturalistas, pós-estruturalistas e pós-colonialistas. O maior renome de Clarice entre os norte-americanos não foi criado nos EUA, mas na França, a partir dos anos 1970. “Os textos de Hélène Cixous, logo traduzidos para o inglês, apresentaram Clarice como exemplo perfeito da écriture féminine.” Segundo esse conceito teórico, certos escritores, não necessariamente do sexo feminino, criam textos que “favorecem o gasto, a doação, o risco”.

Para Earl E. Fitz, professor da Vanderbilt University e autor de Clarice Lispector (1985), a divulgação da obra lispectoriana depende de uma apresentação crítica competente. As expectativas dos leitores têm de ser consideradas, assim como as dificuldades de estilo, sintaxe e pontuação, ao traduzir a autora brasileira. “Complexidades estilísticas e ambiguidades temáticas não agradam a um país de raí-zes utilitárias como os EUA”, diz. “É preciso explicar a singularidade da ficção de Clarice no contexto brasileiro e no internacional.” Quando estudante, Fitz teve Gregory Rabassa como mentor. “As traduções, ele dizia, deveriam ser refeitas de tempos em tempos para dialogarem com cada geração.” O futuro de Clarice está em jogo.