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Biógrafo de Dostoiévski

Leia a seguir entrevista com Joseph Frank, de 92 anos, professor de literatura comparada nas universidades de Stanford e Princeton. Ele falou sobre a sua grande obra, a biografia do escritor russo Fiódor Dostoiévski, morto há 130 anos. Há quem eleja esta biografia, publicada originalmente em cinco volumes entre 1976 e 2002, a melhor já escrita em língua inglesa.

Publicada na edição 163 da revista Cult

 

 

 

Francisco Quinteiro Pires
Nova York

Durante mais de meio século, Joseph Frank lidou com uma única obsessão: Fiódor Dostoiévski. Frank conheceu o escritor russo por meio dos existencialistas nos anos 1950, enquanto estudava na França. “À época, eu podia ser visto carregando uma gramática e um dicionário russos pelas ruas de Paris”, diz.

“Havia descoberto um autor que escreveu sobre problemas eternos para a civilização ocidental, como os embates do mal com o bem e do indivíduo com a família”, diz. “Percebi na sua obra como os percalços da sociedade russa do século 19 mimetizaram as tragédias gregas e os dramas bíblicos.” A primeira ideia de Frank foi estudar o ódio do protagonista de Memórias do Subsolo, livro reverenciado por Albert Camus e Jean-Paul Sartre.

De tão presente, Dostoiévski se tornou parte da família do crítico americano de 92 anos. Ele se exibe como um parente próximo em quadros pendurados nas paredes da casa de Frank, na Califórnia. As conversas com a sua esposa, a matemática Marguerite, têm o romancista como tema inevitável. Depois de tanto diálogo, a opinião de Marguerite sobre Nastácia Filíppovna, personagem do romance O Idiota, entrou na obra maior do marido. Biografia revista por Frank e lançada no ano passado, Dostoevsky, A Writer in His Time (Princeton University Press, 984 págs., US$ 35) veio com algumas páginas escritas por Marguerite. “Eu sempre usei os comentários dela para alterar os meus livros: ela é o meu primeiro leitor e revisor”, diz Frank, professor de literatura comparada nas Universidades de Stanford e Princeton.

Não foi diferente com a edição resumida da biografia de mais de 2,5 mil páginas, originalmente publicada em cinco volumes entre 1976 e 2002. Realizada por Mary Petrusewicz, a condensação em um único tomo durou mais de dois anos. “Ao aceitar essa redução, quis transformar Dostoiévski em um sujeito mais familiar para o leitor”, diz. Frank concordou com o corte de dois terços do seu trabalho premiado apenas porque a editora garantiu manter em catálogo a obra no seu formato original.

A volumosa biografia de Dostoiévski é considerada pelo escritor americano David Foster Wallace (1962-2008) a melhor já escrita em língua inglesa. Segundo o autor de Infinite Jest, ela é superior à James Joyce, de Richard Ellmann, tratada como a referência do gênero. Para Frank, “Wallace é o leitor mais sensível” dos seus escritos. Os cinco volumes receberam elogios de J.M. Coetzee, Nadine Gordimer, A.S. Byatt, Michael Dirda e James Wood.

A Edusp publicou os livros no Brasil durante as duas décadas passadas. Dostoiévski I: As Sementes da Revolta – 1821 a 1849 (tradução de Vera Pereira) aborda os primeiros anos da vida familiar do escritor. “A sua mãe sentia empatia pelos pobres e desafortunados”, diz. “Incapaz de controlar os nervos, o pai era dado a explosões de raiva, característica herdada pelo filho.” Ao contrário de Pushkin, Gógol, Turguêniev e Tolstói, Dostoiévski não é um bem nascido. A origem plebeia influencia o seu posicionamento como ficcionista. Certa vez, Tolstói afirmou que o seu rival escrevia sobre “a vida das exceções”, eufemismo para as experiências dos camponeses.

O romancista nasceu em Moscou, a 3 de outubro de 1821, e passou a infância sob o Estado repressor do czar Nicolau I. “Nesse período, o duelo fatal entre intelligentsia e aristocracia moldou o curso histórico posterior da Rússia”, diz Frank. “A intelectualidade russa sofria então uma crise espiritual e moral, ao mesmo tempo que, desesperada, buscava novos valores.” Para entender o futuro autor, o biógrafo vai às raízes mais profundas de Dostoiévski, influenciado por uma educação cristã. Ao comentar as características de Gente Pobre (Editora 34, tradução de Fátima Bianchi) e O Duplo (Editora 34, tradução de Paulo Bezerra), ele revela a acolhida positiva de Dostoiévski entre escritores e críticos de São Petersburgo.

Dostoiévski II: Os Anos de Provação – 1850 a 1859 (tradução de Vera Pereira) narra a passagem do escritor pelos campos de trabalhos forçados da Sibéria. Ele fora condenado como conspirador político pelo regime czarista ao se envolver com o Círculo Petrachévski. “Ele era independente e decidido, além de assertivo na defesa das opiniões. Esse comportamento, disse um dia o seu pai, iria lhe criar problemas”, diz Frank. “Na prisão, as suas ideias foram regeneradas, chegando ao rés do chão. Esse período de confinamento convenceu Dostoiévski da necessidade inalienável de liberdade.” A evolução literária dependeu dessa experiência cujo término foi a prestação de serviços como soldado raso para os regimentos do exército russo. A escrita de Recordações da Casa dos Mortos (Nova Alexandria, tradução de Nicolai S. Peticov) começa em meio a esses infortúnios.

Frank investiga em Dostoiévski III: Os Efeitos da Libertação – 1860 a 1865 (tradução de Geraldo Gerson de Souza) as transformações desencadeadas pela permanência de 10 anos na Sibéria. Liberto, o escritor passa a editar revistas. Inicia-se a sua atuação como jornalista. Nos últimos anos de vida, ele se tornaria o publicista mais lido da história da Rússia, segundo Frank. “As ideias debatidas em seus romances e textos jornalísticos são em essência as mesmas.” Elas ecoam uma resposta às mudanças histórico-ideológicas de seu tempo. “O niilismo dos anos 1960, associado aos anarquistas Mikhail Bakunin e Sergey Nechayev, influenciam a sua produção intelectual.” Em turbulência após a libertação dos servos em 1861, o cotidiano da sociedade russa se converte na maior preocupação do romancista.

Os seis anos em que o escritor produziu as obras que o alçaram ao cânone universal são o tema de Dostoiévski IV: Os Anos Milagrosos – 1865 a 1871 (tradução de Geraldo Gerson de Souza). Durante esse período atribulado – casou-se pela segunda vez, teve crises de epilepsia, foi perseguido por credores -, ele escreveu três dos seus quatro grandes romances: Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios, todos publicados pela Editora 34 com tradução de Paulo Bezerra. Livros de menor extensão, Um Jogador e O Eterno Marido, ambos da Editora 34 e traduzidos por Boris Schnaiderman, são concebidos sob crises psicológicas e privação material.

Último volume, Dostoiévski V: O Manto do Profeta – 1871 a 1881 (tradução de Geraldo Gerson de Souza) discute a concepção de Os Irmãos Karamázov (Editora 34, tradução de Paulo Bezerra). “Nos anos 1870, ele escreve sob o questionamento de intelectuais russos a respeito do conceito de progresso e da existência de Deus.” O biógrafo aborda Diário de um Escritor, publicação mensal de maior circulação da história da Rússia. E destaca o respeito dos críticos à ficção dostoievskiana.

Nos cinco livros, Dostoiévski é tratado como um “romancista ideológico”. Ele tem uma propensão a dramatizar as representações da mente. Em seu caso, o sentimento precede a razão. “As ideias se transformam na parte essencial da personalidade dos indivíduos criados em seus romances”, diz Frank.

O autor russo inventa ocasiões e ações em que as ideias dominam o comportamento dessas figuras humanas ficcionais. “Os personagens respondem às consequências das suas crenças de acordo com os padrões morais e sociais em vigência”, diz. “Essa fusão entre os níveis individual e social fornece às obras de Dostoiévski o seu alcance imaginativo e a sua base realista.”

A originalidade dos escritos dostoievskianos aparece, diz Frank, quando as suas particularidades são inseridas no contexto sociocultural do seu tempo. A biografia do romancista se metamorfoseia, assim, num relato panorâmico sobre a história russa do século 19. O crítico literário não analisa os livros como uma janela para o comportamento do autor. Ele faz o contrário. Assim, história social e crítica literária se fertilizam.

Frank evita “uma abordagem tradicional”: a costura entre fatos e anedotas da vida pública do biografado. Frank notou que a maioria dos estudos literários direcionava o seu foco para as peripécias de uma existência a um só tempo espetacular e dramática. “Dostoiévski tem uma trajetória de altos e baixos. Passou anos na cadeia, dividindo espaço com camponeses criminosos. No fim, porém, recebeu convites para jantar com jovens da família do czar Alexandre II.” Em vez de ser iluminadora, essa trajetória peculiar e fascinante atuou como um cabresto às investigações críticas em torno das obras do ficcionista russo.

Sob o ponto de vista de Frank, Memórias do Subsolo (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman) é lido como uma reação à saída do escritor da Sibéria e ao encontro de um ambiente intelectual dominado por ideologias deterministas. Dostoiévski considerava inaceitável o determinismo apresentado por Nikolai Tchernichévski como a última palavra da ciência. “Aquele romance expõe o choque entre a crença no comportamento condicionado e as variações de uma psiquê atormentada.”

Crime e Castigo apresenta uma réplica às propostas do pensador radical Dmítri Píssarev. O personagem Raskólnikov age de acordo com a distinção entre as massas incultas e os indivíduos superiores defendida por Pisarev. Ele se atribui o direito de matar, e o pratica, como se esse crime fosse do interesse da humanidade. “No fim das contas, Raskólnikov testa a sua consciência cristã para ver se era capaz de realizar o seu grande objetivo: superar esse escrúpulo.” Ele fracassa.

Protagonista de O Idiota, o príncipe Míchkin não tem melhor destino. Nesse romance sobre “a moral cristã em confronto com o egoísmo utilitário”, Míchkin encarna “o paradigma do sacrifício de Cristo”. Para Dostoiévski, a compaixão deveria ser a regra entre os homens. Apesar desse idealismo, ele era realista o suficiente para admitir o fracasso do príncipe quixotesco em um mundo governado pela injustiça.

Os temas metafísicos que fascinaram Dostoiévski no século 19 e depois os existencialistas em meados do 20 foram censurados quando os soviéticos tomaram o poder. O escritor russo caiu em desgraça. “Como suscitava debates sobre religião, a leitura dos seus romances foi banida”, diz Frank. “Após 1917, quando ocorre a revolução bolchevique, tornou-se difícil estudar os seus livros de modo imparcial.”

Na maturidade, Dostoiévski vislumbrou uma essência cristã no povo russo, representado pela camada mais necessitada, a dos camponeses. “O grande problema da Rússia, quando ele escreveu os seus grandes romances, era a relação entre a vasta população campesina e a elite que a controlava”, diz Frank. “Com o tempo, o romancista se convenceu de que o destino do seu país era levar o mundo até Deus.”

Dostoiévski se percebia como “um escritor em uma missão transcendente, quase religiosa”, diz. Os seus personagens são donos de almas atormentadas com teorias e imagens de si mesmos nada elogiosas. “Esses indivíduos veem a própria existência consumida pela culpa em relação a tendências rebeldes e oprimida por um sentimento de inferioridade”, diz. “Os seus romances são representações de batalhas entre o bem e o mal ocorridas no interior do indivíduo.”

Para Frank, Os Irmãos Karamázov apresenta esse embate da maneira mais angustiada. “Ele retrata o dilema em torno de um Deus que permite a existência do mal”, diz. “Os problemas propostos pela aparição de Cristo na Terra são essenciais para entender Dostoiévski, cujas palavras propunham uma conciliação universal.”

Embora a sua obra questionasse a infalibilidade da crença e da religião, até o fim Dostoiévski acreditou na comunhão entre os homens. No seu funeral, ocorrido há 130 anos, indivíduos de diferentes orientações políticas prestaram as últimas homenagens. Naquele momento, segundo Frank, o escritor poderia ter visto se realizar a fraternidade pela qual tanto havia esperado.

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Perfil de Cesar Camargo Mariano

Leia a seguir entrevista com Cesar Camargo Mariano. O pianista e arranjador vai lançar um livro de memórias.

Publicado na edição 161 da Revista Cult (setembro).

 

 

 

Francisco Quinteiro Pires, de Nova York

Ao escrever um livro de memórias, Cesar Camargo Mariano apresentou-se como coadjuvante da própria história. Ele tem alma de artista. Sente muita dor quando alguém critica sua obra, como se sua existência estivesse em questão. Ele soube, porém, abdicar do egocentrismo para narrar suas experiências.

Memórias, que está saindo pela editora LeYa, é um exercício de humildade. Sem os parceiros que encontrou em quase 68 anos de vida, que completa no dia 19 deste mês, Cesar Camargo Mariano pode dar a impressão ao leitor de que não é um dos músicos essenciais da MPB.

O lançamento de Memórias será diferente. Em vez de sentar à mesa de uma livraria e distribuir autógrafos, concebeu um show com 14 músicas inéditas. O instrumentista sobe ao palco do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, nos dias 9, 10 e 11 de setembro.

No mesmo espaço, vai exibir alguns desenhos a lápis criados especialmente para o volume. Desde 1994, vive na cidade de Chatham, em Nova Jersey, a uma hora e meia da Penn Station, em Manhattan. Ele montou um estúdio no porão da casa, onde recebeu a CULT.

“Não tenho nenhuma pretensão de ser escritor”, diz. “Ao contrário do vinil, da fita cassete e do CD, o livro é a maneira mais eficiente de eternizar uma obra.” Camargo Mariano não tem vontade de que os outros sigam seus conselhos. “Quero apenas incentivar os jovens a prestar a atenção que eu prestei para ser músico.” Ser atento, segundo o pianista, é ter respeito pelo poder da música.

O amigo Alf
Adolescente, aprendeu o comportamento íntegro em relação à arte com um dos precursores da bossa nova, Johnny Alf, que viveu na casa de seus pais por sete anos. “Ela existe dentro de mim, mas não se submete a mim”, diz. Aos 14 anos, assistiu a um show do pianista na boate Golden Ball.

Na casa dos pais de Camargo Mariano, em São Paulo, o instrumentista era o responsável por buscar as crianças na escola. O pianista não dava conselhos, mas sua presença foi suficiente para Camargo entender “os bastidores da arte, as dificuldades e dramas de ser músico”.

Kubrick e Hitchcock
Por dois anos, a família cuidou de Alf, debilitado por uma cirrose hepática. Beth, uma das irmãs, parou de trabalhar para acompanhar a saúde do músico acamado. A mãe de Camargo Mariano guardou em caixas, legadas para o filho, folhas amassadas e rasgadas em que o hóspede anotou composições.

Em vez de música, o jovem instrumentista conversava com o compositor carioca sobre cinema. “Ele me ensinou a ser um telespectador exigente.” Camargo Mariano sempre revê os filmes de Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock. Lembra ter descoberto por acaso o trabalho de Johnny Mandel, “o maior dos compositores de trilhas sonoras”.

Certo dia, andando à toa pelas ruas de São Paulo, ele e o violonista Théo de Barros entraram à 1 da tarde em uma sala que exibia Adeus às Ilusões (1965). “Esperava um dramalhão com péssima atuação da Elizabeth Taylor.”

Protagonizado pela atriz e por Richard Burton, o filme de Vincente Minnelli tinha “uma trilha sonora absurda”, criada por Mandel. Os dois assistiram várias vezes ao longa-metragem, chegando à última sessão, das 2 da madrugada.

Anos depois, no estúdio onde gravou o disco Elis & Tom, Camargo Mariano conheceu pessoalmente o compositor norte-americano, de quem se tornaria grande amigo. Na ocasião, Mandel confessou ser fã do instrumentista brasileiro.

O cinema é inspiração para a técnica musical de Camargo Mariano. Antes de se tornar compositor de trilhas sonoras para filmes, novelas e minisséries, ele entendia como cinematográfico o processo de compor e arranjar.

Trilhas para filmes
“A letra e a melodia servem como roteiros para construir uma unidade que expressa os sentimentos e sonhos de um músico”, diz. “Por isso, foi automático fazer trilhas.” Ele compôs para Eu Te Amo (1980), filme de Arnaldo Jabor; Mandala (1987-1988), novela da Rede Globo; e Avenida Paulista (1982), minissérie da mesma emissora.

A paixão pelo cinema conduziu-o ao amor por Elis Regina. A convite de Ronaldo Bôscoli, que estava se divorciando da Pimentinha, em 1971, Camargo Mariano cuidou dos arranjos e da direção musical de uma temporada de shows da cantora no Teatro da Praia.

Às segundas-feiras, dia de folga das apresentações, Elis reunia amigos em casa para uma sessão de cinema. Eles alugavam filmes e um projetor do Museu da Imagem e do Som. Elis convidou Camargo Mariano para assistir a Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman.

Durante uma pausa para a troca dos rolos do longa-metragem, a cantora colocou um bilhete no bolso da camisa do pianista. Disse para ler depois de terminada a exibição. Ele não aguentou, saiu da sala escura e se trancou no banheiro para ler a mensagem de amor. O namoro começou. Tiveram dois filhos, os cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

A parceria profissional entre Elis Regina e Cesar Camargo Mariano foi uma das mais bem-sucedidas da música brasileira e atravessou os anos 1970. O pianista produziu e arranjou os discos Elis (1973), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Elis (1977), Transversal do Tempo (1978) Essa Mulher (1979), Saudades do Brasil (1980) e Trem Azul (1981).

Nos ensaios para a temporada no Teatro da Praia, Elis fez uma confissão. “Quando escuto essa música, na hora que chega esse trecho aqui, me dá uma dor por dentro, aqui ó”, disse, ao mesmo tempo em que pousava as mãos sobre o ventre.

Elis referia-se, diz Camargo Mariano, a um acorde criado por ele para valorizar a interpretação. “Desde criança, sinto essa dor também por causa de certos acordes. É algo pessoal, intransferível. Só não sabia que outras pessoas sentiam algo semelhante, e a sensação descrita por Elis me ajudou a identificar o que eu próprio sentia e sinto”, diz.

A insegurança de Tom
Clássico da MPB, Elis & Tom (1974) provocou um dos choques emocionais mais fortes que Camargo Mariano já sentira. “Por causa da gravação desse disco, Tom Jobim transformou-se de ídolo em ser humano.”

A tomada de consciência sobre a personalidade do compositor de “Águas de Março” ocorreu ao longo de 22 dias de convivência, três deles para as gravações no estúdio.
Elis e Camargo Mariano chegaram a Los Angeles sem avisar. Tom Jobim não sabia de nada, e o compositor Aloysio de Oliveira não conseguiu localizar o compositor por telefone. “Foi uma situação ímpar, além de dramática.”

Aos 31 anos, Camargo Mariano teve de superar as inseguranças de Tom Jobim, então com 47. Mesmo sendo uma estrela, Tom sofria com a possibilidade de o disco fracassar. Queria ter controle sobre todo o processo e dispensar os arranjos e a direção musical do jovem pianista. A resistência foi grande, a ponto de Camargo Mariano dizer-lhe, com educação, que o disco era de Elis – e Tom apenas um convidado. Ilustre, mas ainda assim um convidado.

Quando ele terminou a mixagem das gravações às 5 da madrugada, levou uma fita com o material para o compositor. O arranjador insistiu para que escutassem. Ao ouvir o trabalho pronto, Tom chorou compulsivamente.

No dia seguinte, pelo telefone, confessou ao parceiro mais novo: “Vocês tomam banho de chuveiro, com água fria e corrente, eu tomo de banheira, com água morna, que vai se ajustando à temperatura do meu corpo”, relembra Camargo Mariano, imitando a voz rouca do maestro. Era uma metáfora para a insegurança de Tom diante daqueles jovens atrevidos.

Pai professor
Desde cedo, Cesar Camargo Mariano chamou atenção por seus dotes musicais. Influenciado por Nat King Cole e Erroll Garner, ele aprendeu a tocar de ouvido. Autodidata, teve suas primeiras lições de teoria musical dadas pelo pai. Aos 13 anos, não entendia direito as definições teóricas, mas no piano era capaz de executar de modo comovente o que lhe era pedido.
Boa parte de Memórias aborda a importância das relações familiares. O livro relembra a emoção do primeiro piano, de cor amarela e dispensado pela antiga dona.

O talento natural de Camargo Mariano desenvolveu-se na convivência com músicos da São Paulo do início dos anos 1960. Ele recorda a atuação por dois anos na Baiuca, casa de shows na Praça Roosevelt, no centro da cidade.

Sambalanço
Nas apresentações, tocava habitualmente um repertório de jazz, mas um pedido foi fundamental para a formação de seu estilo. Certa noite, alguém da plateia lhe pediu um samba. Ao tentar tocá-lo no compasso jazzístico, não teve sucesso. Quando introduziu a cadência do samba, acentuando o ritmo no tempo fraco da composição, foi aplaudido.

Nos anos 1960, formou com Airto Moreira e Humberto Clayber o Sambalanço Trio. Tornou-se uma referência para a bossa nova com performances no João Sebastião Bar, o templo paulistano daquele gênero musical nascente.

Na mesma época, ajudou a criar com o coreógrafo norte-americano Lennie Dale e o diretor Solano Ribeiro um espetáculo para o Teatro Arena. Depois de São Paulo, as apresentações foram para o Rio, resultando no disco Lennie Dale & Sambalanço Trio no Zum-Zum (1965).

Camargo Mariano acredita nos ensaios. É bom conhecer minuciosamente as manhas musicais para lidar com o improviso. Foi o que ele aprendeu ao trabalhar como arranjador e diretor musical de Wilson Simonal em programas da Rede Record, na segunda metade dos anos 1960.
Era comum o pianista ensaiar à exaustão e, na última hora, ver o repertório mudar. “É necessário jogo de cintura nessa profissão.”

Tendo trabalhado com os músicos brasileiros mais importantes – “só faltam Roberto Carlos e Gilberto Gil” –, Camargo Mariano ainda nutre alguns desejos, como um duo com Tony Bennett. “Não tenho muitas vontade em relação à nova safra brasileira, que está bem difícil.”

Enquanto não realiza o sonho, passa os dias no estúdio, de onde se comunica via Skype com os parceiros musicais. Os instrumentos eletrônicos estão sempre à mão para registrar as novas ideias. Ele reclama que da cabeça para o papel muita coisa se perde. “A criação da música é um drama que revolve as vísceras”, diz. “Mas só sendo assim para trazer dignidade à arte.”