Leia texto sobre Train Dreams, de Denis Johnson, novela que será publicada no Brasil até o fim do ano.

A filha e a esposa desaparecerem num incêndio na cidade onde moravam, no estado de Idaho. A tragédia o perturbou anos a fio, mas a angústia não se manifestou com clareza. Aguentou calado, sem construir explicações para a fatalidade.
Grainier ergueu uma nova casa no mesmo espaço do lar incendiado. A mulher amada surgiu em sonhos. O sumiço da sua família foi tão notado pelos outros quanto o do próprio Grainier, ocorrido décadas depois. Morto no fim do outono, o corpo do protagonista foi encontrado por dois caminhantes apenas no começo da primavera. O enterro se deu com uma pá, usada para cavar um buraco na terra. Com Grainier sucumbiu algo da mitologia dos Estados Unidos.
Nascido na Alemanha Ocidental em 1949, criado em Tóquio, Manila e Washington, o escritor Denis Johnson relata com secura a história nada extraordinária de Robert Grainier. Comparado ao estilo dos livros de Ernest Hemingway, Train Dreams (Farrar, Straus and Giroux, 128 págs., US$ 18) é uma novela sobre um trabalhador braçal afetado pela Grande Depressão. Grainier é um homem sem estudos, cujo corpo se arruína com a labuta pesada e cotidiana.
O personagem tem perturbações metafísicas nada óbvias. Johnson faz pelo Oeste dos Estados Unidos o que Guimarães Rosa fez pelo sertão brasileiro. Ambos atribuem alma a homens rústicos, quase animalizados, de uma região desolada, mas ainda assim importante para a formação de uma identidade nacional.
Contemplado com o National Book Award em 2007, Johnson se tornou conhecido por Jesus’ Son (1992), coletânea de contos transposta para o cinema por Alison Maclean. Publicados no Brasil pela Companhia das Letras, Árvore de Fumaça e Ninguém se Mexe também fazem uma crônica da vida norte-americana. O primeiro aborda as insanidades da Guerra do Vietnã. Inspirado por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, Ninguém se Mexe narra os excessos de um jogador compulsivo e tabagista na Costa Oeste dos EUA, onde os indivíduos se percebem apartados do resto do mundo.
Train Dreams se diferencia daqueles dois romances de Johnson tanto pela objetividade da narração como pela discrição do protagonista. É uma novela, texto mais longo do que um conto e mais curto do que um romance. Inventado na Idade Média, o gênero é usado pelo autor norte-americano para apresentar uma história cujas pontas não se entrelaçam numa conclusão definitiva. Train Dreams tem um final tão aberto quanto o destino dos Estados Unidos.
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